Condropatia patelofemoral (condromalácia): o que é, causas e sintomas
- Gabriel Taniguti
- 14 de ago.
- 4 min de leitura
A condropatia patelofemoral — também chamada de condromalácia da patela — é uma das causas mais comuns de dor na frente do joelho. O nome descreve uma alteração da cartilagem que reveste a parte de trás da patela (a “rótula”) e a tróclea do fêmur, o sulco por onde a patela desliza quando o joelho dobra e estica.
Essa cartilagem existe para o movimento ser suave e para o osso não atritar contra o osso. Quando ela amolece, irregulariza ou desgasta, o deslizamento deixa de ser confortável. O resultado típico é dor na frente do joelho, principalmente em atividades que comprimem a patela contra o fêmur.
Não é “frescura” nem, na maioria das vezes, uma lesão aguda de um único treino. É um problema de como o joelho está sendo carregado ao longo do tempo — e por isso costuma melhorar quando a causa mecânica é tratada, não só quando a dor é mascarada.
O que acontece no joelho
A patela funciona como uma polia: aumenta a força do músculo da coxa (quadríceps) e deve deslizar no centro do sulco do fêmur. Se ela puxa demais para o lado, se o músculo está desequilibrado ou se o volume de treino sobe rápido demais, a pressão se concentra em um ponto da cartilagem.
Com a repetição, essa área sofre. No começo a cartilagem pode apenas ficar mais sensível. Depois pode amolecer, fissurar e, em fases mais avançadas, expor o osso. Daí os nomes que você pode ouvir no consultório ou no laudo: condropatia, condromalácia, condropatia grau I a IV.
O grau no exame de imagem ajuda a descrever a cartilagem. Ele não define sozinho o tratamento, nem o quanto você vai doer: tem gente com alteração no exame e pouca dor, e gente com dor importante e alteração discreta.
Causas
A condropatia quase nunca tem uma única causa. O mais comum é a soma de fatores:
Sobrecarga e aumento rápido de treino. Começar a correr, subir o volume da musculação, trocar para um piso mais duro ou voltar ao esporte depois de um tempo parado. A cartilagem e os músculos não acompanham o salto de carga.
Desequilíbrio muscular. Quadríceps fraco — em especial a porção mais interna, o vasto medial —, glúteos pouco ativos e posterior de coxa encurtado mudam a forma como a patela é guiada. O joelho “cede” para dentro na aterrissagem ou no agachamento, e a patela deixa de correr no centro do sulco.
Encurtamento e tensão. Banda iliotibial, tensor da fáscia lata e músculos da panturrilha muito tensos puxam a patela para fora ou aumentam a pressão no compartimento anterior.
Alinhamento do membro. Joelho valgo (“para dentro”), patela alta, aumento do ângulo Q, pé plano ou rotação excessiva do fêmur e da tíbia alteram a trilha da patela. Não é defeito: é uma mecânica que, sob carga repetida, sobrecarrega a cartilagem.
Trauma direto. Queda de joelho, pancada no painel do carro ou impacto no esporte podem lesar a cartilagem da patela e iniciar o quadro.
Uso repetido em flexão. Agachamento profundo frequente, subida e descida de escada o dia todo, ajoelhar no trabalho ou no esporte, pedalada com ajuste ruim do selim.
Fatores que somam. Sobrepeso aumenta a carga na articulação patelofemoral. Mulheres jovens e adolescentes em fase de crescimento aparecem com frequência no consultório — a combinação de alinhamento, frouxidão e esporte é comum nessa faixa. Idade e desgaste ao longo da vida também entram, sobretudo se já existe artrose.
Sintomas
O sintoma central é dor na frente do joelho, às vezes descrita como “atrás da rótula” ou “em volta da patela”. Em geral não é uma dor de estalo único, como numa entorse. É uma dor que volta sempre que o joelho é comprimido.
Os relatos mais frequentes:
Dor ao descer escada ou rampa — em muitos pacientes, pior do que ao subir
Dor para agachar, ajoelhar ou levantar da cadeira
Dor depois de ficar sentado muito tempo com o joelho dobrado (cinema, carro, escritório). Ao esticar a perna, alivia. Isso é tão típico que tem apelido: “sinal do cinema”
Incômodo ao correr, sobretudo em descida, ou no fim do treino
Sensação de areia, estalo fino ou crepitação ao dobrar o joelho — pode existir sem gravidade, mas assusta
Joelho que “falha” ou cede por dor, sem necessariamente haver um ligamento rompido
Inchaço leve após atividade; inchaço importante e joelho muito quente pedem avaliação mais urgente
Em alguns casos, dor depois do exercício, no dia seguinte, e não só durante
O que em geral não é o quadro típico da condropatia isolada: um estalo forte no momento da lesão com inchaço em poucas horas (pensar em ligamento), joelho que trava e não estica (pensar em menisco) ou falseio verdadeiro de instabilidade.
Quando procurar avaliação
Vale agendar uma consulta se a dor:
limita escada, agachamento ou o esporte por mais de algumas semanas
volta sempre que você retoma o treino
aparece com inchaço repetido
surgiu depois de uma pancada no joelho
já veio com um laudo de “condropatia” ou “condromalácia” e você não sabe o que isso muda na prática
No consultório, o diagnóstico se apoia na história e no exame físico. A ressonância ajuda a ver a cartilagem e a afastar outras lesões; ela não substitui o exame do joelho nem a conversa sobre treino, alinhamento e o que você precisa voltar a fazer.
O que costuma ajudar
O tratamento da maioria dos casos é conservador: ajustar a carga, reequilibrar a musculatura e melhorar a forma como a patela é guiada. Alongar o que está curto, fortalecer quadríceps e quadril, corrigir o gesto do esporte e, quando faz sentido, usar palmilha ou ajuste de equipamento.
Gelo após a atividade que irrita, evitar agachamento profundo e descidas longas na fase aguda, e não “testar” o joelho no mesmo volume que provocou a dor são medidas simples enquanto a avaliação não acontece.
Cirurgia não é o primeiro passo na condropatia patelofemoral. Ela entra em situações selecionadas, quando a dor persiste apesar de reabilitação bem feita ou quando existe uma causa mecânica clara que o tratamento clínico não resolve.
Enquanto isso: se o joelho estiver muito inchado, quente, travado ou impossível de apoiar, não espere a agenda eletiva.
Dr. Gabriel Taniguti
Ortopedista — Traumatologia do Esporte e Cirurgia do Joelho. Escola Paulista de Medicina / UNIFESP (DOT e CETE).
Av. Chucri Zaidan, 940 — 3º andar, Tower 2 — Vila Cordeiro, São Paulo. Telefones: (11) 5039-4356 · (11) 93305-8210.
Este texto é educativo e não substitui consulta médica.




Comentários