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Osteocondrite dissecante do joelho: o que é, causas e sintomas no jovem e no adulto

  • Foto do escritor: Gabriel Taniguti
    Gabriel Taniguti
  • 25 de ago.
  • 5 min de leitura

A osteocondrite dissecante (OCD) é uma lesão em que um pedaço de cartilagem articular — a que reveste o osso — fica solto, ou quase solto, junto com o osso que está logo abaixo dela, o osso subcondral. Não é um “desgaste geral” do joelho. É um fragmento localizado que pode permanecer no lugar ou se desprender e virar um corpo livre dentro da articulação.

O nome assusta e, no laudo, costuma aparecer em inglês: osteochondritis dissecans. Não é uma infecção e, na maior parte dos casos, também não é uma inflamação aguda. É um problema de como aquele pedaço de osso e cartilagem está nutrido e carregado.

A conversa muda bastante conforme a idade. No jovem — com a cartilagem de crescimento ainda aberta — o osso tem mais chance de cicatrizar. No adulto, a fise já fechou, a cicatrização é pior e o fragmento solta com mais facilidade. Por isso o mesmo diagnóstico no papel não significa o mesmo joelho na prática.

No joelho, o sítio clássico é o côndilo femoral medial, na parte que articula com a tíbia. Pode aparecer também no côndilo lateral, na tróclea ou na patela. Menos vezes, a OCD acomete cotovelo ou tornozelo — aqui o foco é o joelho, que é onde ela mais aparece no consultório de traumatologia do esporte.

O que acontece no joelho

A cartilagem articular não tem vasos. Ela se nutre do líquido sinovial. O osso logo abaixo dela, o subcondral, tem vasos. Quando essa vascularização falha — por sobrecarga repetida, por um terreno que já era frágil, ou pelos dois — aquele território de osso sofre. A cartilagem que está por cima pode fissurar, afundar ou se soltar junto com o osso.

Enquanto o fragmento está estável, ele ainda “encosta” no leito. A dor costuma ser de atividade. Quando ele se solta em parte ou por completo, o joelho pode travar, estalar e inchar: o pedaço vira um corpo livre que se interpõe entre fêmur e tíbia.

No jovem. A fise aberta e a maior capacidade de reparo do osso subcondral fazem diferença. Muitas lesões estáveis cicatrizam com redução de carga, afastamento temporário do esporte e acompanhamento. Não é garantia — lesão instável, grande ou que já soltou o fragmento é outro capítulo — mas o potencial de cura é real. A faixa clássica é a adolescência, sobretudo entre 10 e 15 anos, em quem treina muito.

No adulto. A fise já fechou. O osso subcondral repara mal. Uma parte dos casos é uma OCD da adolescência que nunca cicatrizou de verdade e só ficou sintomática depois; outra parte aparece já com o esqueleto maduro. O fragmento tende a ser mais instável, a cartilagem sofre mais e o risco de artrose daquele compartimento, se o pedaço virar corpo livre ou deixar um buraco no côndilo, é maior. A chance de o tratamento conservador isolado resolver o problema é menor quando comparado com o jovem com lesão estável.

O grau no exame de imagem — estável, parcialmente solto, corpo livre — ajuda. Ele não substitui o exame do joelho nem a idade óssea: o mesmo “grau II” em um menino de 12 anos e em um adulto de 35 não se comporta igual.

Causas

A causa exata não está fechada. O mais honesto é dizer que a OCD é a soma de sobrecarga e um osso subcondral que não aguentou. Não costuma ser um único trauma memorável, embora um impacto possa desprender um fragmento que já estava frágil.

O que mais aparece na história:

  • Microtrauma repetido — futebol, basquete, ginástica, corrida, saltos. O côndilo é carregado milhares de vezes por treino.

  • Esporte em fase de crescimento — no jovem, volume alto justamente quando o osso ainda está madurando.

  • Falha da vascularização do osso subcondral — aquele território fica isquêmico e o fragmento se delimita.

  • Fatores que somam — história familiar em alguns pacientes, alinhamento que concentra carga em um côndilo, lesão prévia do joelho.

  • No adulto — lesão da adolescência que não consolidou, ou um fragmento que se desprende depois que a fise já fechou, com menos margem de cicatrização.

Não é “frescura” e também não é artrose difusa. É um foco. Por isso o paciente muitas vezes aponta um ponto do joelho, ou descreve um travamento que vai e volta, e o resto da articulação ainda parece “boa” no dia a dia.

Sintomas

O quadro depende de o fragmento estar quieto no leito ou já se mexendo. Jovem e adulto compartilham a lista; o que muda é o contexto e a velocidade com que a lesão piora.

Lesão estável — o mais comum no jovem no começo:

  • dor no joelho ligada ao esporte, que melhora com repouso e volta no treino

  • incômodo mal localizado, às vezes descrito como “fundo do joelho” ou na face interna

  • inchaço discreto depois do jogo ou do treino longo

  • rigidez após atividade

  • em adolescente, a queixa pode ser tratada como “dor de crescimento” por semanas — e não é

Quando o fragmento fica instável ou vira corpo livre:

  • estalo, ressalto ou a sensação de algo solto dentro do joelho

  • bloqueio: o joelho trava e não estica ou não dobra por completo, depois solta

  • falseio por dor ou pelo fragmento se interpondo

  • inchaço mais claro, que volta sempre que retoma a atividade

  • no adulto, esses sinais de “pedaço solto” aparecem com mais frequência e com menos história de trauma único

O que muda entre jovem e adulto na prática:

  • No jovem, a dor de treino pode existir por meses com fragmento ainda no lugar. Há janela para proteger e ver se cicatriza.

  • No adulto, a queixa de travamento, corpo livre e dor persistente é mais comum. A cartilagem daquele côndilo já sofreu mais tempo.

  • Em ambos, um joelho que trava de verdade pede avaliação mais rápida — o fragmento pode estar se soltando.

O que em geral não é o quadro isolado da OCD: dor bem na frente da patela ao ficar sentado (pensar mais em condropatia); patela que “sai” para o lado (instabilidade); ou dor na interlinha depois de um giro clássico (menisco). Um corpo livre de OCD, porém, trava o joelho de um jeito parecido com o menisco — por isso o exame e a imagem separam os dois.

Quando procurar avaliação

Vale agendar uma consulta se:

  • a dor no joelho de um adolescente atleta não some com alguns dias de folga do treino

  • o joelho incha depois de atividade, de forma repetida

  • há travamento, estalo com bloqueio ou a impressão de um pedaço solto

  • já veio um laudo de “osteocondrite dissecante”, “lesão osteocondral” ou “corpo livre” e não está claro o que isso muda na prática

  • o paciente é adulto e a dor ou o bloqueio começaram sem um evento preciso

No consultório, o diagnóstico se apoia na história e no exame. Radiografia pode mostrar o fragmento ou o leito; a ressonância mostra estabilidade, tamanho, edema ósseo e se a cartilagem ainda está contínua. No jovem, importa saber se a fise está aberta. A imagem não substitui a conversa sobre volume de treino, lado da dor e se o joelho trava.

Enquanto a avaliação não acontece: reduza impacto, pivô e a tentativa de “destrancar” o joelho à força. Se o joelho estiver travado, muito inchado, quente ou impossível de apoiar, não espere a agenda eletiva.

Dr. Gabriel Taniguti

Ortopedista — Traumatologia do Esporte e Cirurgia do Joelho. Escola Paulista de Medicina / UNIFESP (DOT e CETE).

Av. Chucri Zaidan, 940 — 3º andar, Tower 2 — Vila Cordeiro, São Paulo. Telefones: (11) 5039-4356 · (11) 93305-8210.

Este texto é educativo e não substitui consulta médica.

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©2023 por Dr Gabriel Taniguti

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