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Instabilidade patelofemoral (luxação recidivante da patela): o que é, causas e sintomas

  • Foto do escritor: Gabriel Taniguti
    Gabriel Taniguti
  • 18 de ago.
  • 4 min de leitura

A patela — a “rótula” — deveria deslizar no centro de um sulco no fêmur, a tróclea, como um trilho. Na instabilidade patelofemoral, ela perde esse caminho: desloca para o lado (quase sempre para fora), em parte ou por completo, e o joelho dá a sensação de que “saiu do lugar”.

Uma coisa é a patela sair uma vez, em geral num entorse ou num gesto de esporte. Outra é ela voltar a sair. Quando isso se repete, falamos em luxação recidivante da patela. Não é o mesmo problema da condropatia — ali a queixa principal é dor na frente do joelho. Aqui o centro da história é a patela que não fica no trilho.

Muita gente mistura os dois. Dor ao descer escada não é, por si só, instabilidade. Instabilidade é o joelho que foge, a patela que “pula” para o lado, o medo de girar ou aterrissar.

O que acontece no joelho

A patela é uma polia. Ela aumenta a força do quadríceps e precisa correr no fundo do sulco quando o joelho dobra e estica. Três coisas a mantêm no lugar:

  • o formato do sulco (se a tróclea é funda o bastante)

  • o ligamento patelofemoral medial (LPFM) — a “cinta” que segura a patela por dentro

  • o equilíbrio muscular e o alinhamento da perna, que puxam a patela para o centro e não para fora

Na primeira luxação, o mecanismo clássico é o joelho girando ou cedendo para dentro com o pé no chão — ou um impacto no esporte. A patela salta para fora do sulco. Muitas vezes o LPFM estica ou rasga. Pode haver um fragmento de cartilagem ou osso (lesão osteocondral) no momento em que ela sai ou quando volta sozinha.

Depois disso, o trilho fica menos seguro. Se o sulco já era raso (displasia da tróclea), se a patela é alta, se a tuberosidade da tíbia está mais lateralizada ou se o joelho é valgo e frouxo, a chance de a patela sair de novo sobe bastante. Não é “falta de jeito”. É anatomia + um ligamento que já não segura como antes + o gesto que provoca.

Luxação é quando a patela sai por completo e, em geral, precisa ser reduzida — às vezes volta sozinha, às vezes no pronto-socorro. Subluxação é quando ela escorrega para a borda do sulco e volta, sem sair de todo. As duas entram no mesmo guarda-chuva de instabilidade.

Causas

A primeira luxação quase sempre tem um evento. A recidiva quase sempre tem um terreno que já favorecia.

O primeiro episódio. Entorse com o joelho semifletido, mudança de direção, aterrissagem desalinhada, contato no futebol ou no basquete, ou uma queda. Adolescentes e adultos jovens no esporte aparecem com frequência. Mulheres nessa faixa também — combinação de alinhamento, frouxidão e esporte é comum.

O que faz a luxação voltar:

  • Lesão do LPFM depois da primeira saída — a cinta medial fica insuficiente

  • Displasia da tróclea — o sulco é raso ou achatado; a patela não tem “encaixe”

  • Patela alta — ela entra tarde no sulco, justamente no ângulo em que mais precisa de contenção

  • Alinhamento — joelho valgo (“para dentro”), aumento da distância entre a tuberosidade da tíbia e o sulco (TT-TG), rotação do fêmur ou da tíbia

  • Frouxidão ligamentar — joelho e outras articulações mais soltos

  • Desequilíbrio muscular — quadríceps e glúteo que não controlam o joelho na aterrissagem; a patela é puxada para fora

  • Voltar ao esporte cedo depois da primeira luxação, sem ter recuperado confiança nem força

Não é um único vilão. O laudo pode falar em “displasia”, “patela alta” ou “rotura do LPFM”. Isso descreve peças. A conversa no consultório junta essas peças com o que você sente e o que precisa voltar a fazer.

Sintomas

O relato mais típico não é “dói um pouco na frente”. É: a patela saiu — ou quase saiu.

No episódio agudo:

  • estalo ou a impressão de que a rótula foi para o lado

  • dor forte na frente e na face interna do joelho

  • inchaço rápido, às vezes grande, nas primeiras horas

  • dificuldade para esticar ou apoiar

  • a patela pode voltar sozinha ao esticar a perna, ou precisar ser colocada no lugar

Quando a instabilidade fica recidivante:

  • medo de girar, aterrissar, descer escada ou entrar no carro

  • joelho que “foge” para o lado, sem necessariamente haver um trauma novo

  • sensação de falseio — diferente do falseio de um LCA, aqui a queixa aponta para a patela

  • apreensão: só a ideia de empurrar a patela para fora já trava o quadríceps (isso o exame reproduz)

  • dor na frente do joelho entre as crises, sobretudo se a cartilagem sofreu no primeiro episódio

  • inchaço que volta depois de atividade

  • em alguns, um ressalto visível da patela ao dobrar o joelho

O que em geral não é o quadro isolado da instabilidade: dor atrás da rótula ao ficar sentado muito tempo, sem nenhum episódio de “saída” (pensar mais em condropatia); ou um estalo com o joelho que trava e não estica, apontando a interlinha (pensar em menisco). Os problemas podem coexistir — sobretudo depois de uma luxação que arrancou cartilagem.

Quando procurar avaliação

Vale ir ao pronto-socorro ou ao especialista se:

  • a patela saiu e não voltou, ou o joelho está muito inchado e impossível de apoiar

  • foi a primeira luxação — mesmo que a patela tenha voltado sozinha

  • o episódio se repetiu

  • você sente que a patela “quase sai” ao girar ou descer

  • já veio um laudo de “displasia da tróclea”, “patela alta” ou “lesão do LPFM” e não está claro o que isso muda na prática

No consultório, o diagnóstico se apoia na história e no exame — o teste de apreensão é clássico. Radiografia e, com frequência, ressonância e às vezes tomografia entram para ver sulco, altura da patela, LPFM, cartilagem e alinhamento. O exame de imagem não substitui a conversa: o que importa é se a patela está de fato instável no seu joelho, não só se o laudo tem um adjetivo.

Enquanto a avaliação não acontece: evite pivô, aterrissagem e a tentativa de “testar” se a patela sai de novo. Se o joelho estiver travado, muito inchado, quente ou sem apoio, não espere a agenda eletiva.

Dr. Gabriel Taniguti

Ortopedista — Traumatologia do Esporte e Cirurgia do Joelho. Escola Paulista de Medicina / UNIFESP (DOT e CETE).

Av. Chucri Zaidan, 940 — 3º andar, Tower 2 — Vila Cordeiro, São Paulo. Telefones: (11) 5039-4356 · (11) 93305-8210.

Este texto é educativo e não substitui consulta médica.

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