top of page

Lesão do ligamento colateral lateral e do canto póstero-lateral: o que é, causas e sintomas

  • Foto do escritor: Gabriel Taniguti
    Gabriel Taniguti
  • há 11 horas
  • 5 min de leitura

O ligamento colateral lateral (LCL) é a cinta que fica na face de fora do joelho, do fêmur até a cabeça da fíbula. Ele impede que o joelho abra em varo — a perna “abrindo” para fora em relação à coxa.

Ele quase nunca trabalha sozinho. Atrás e um pouco abaixo dele fica o canto póstero-lateral (CPL): um conjunto de estruturas — LCL, tendão do poplíteo, ligamento poplíteo-fibular, cápsula lateral — que segura o joelho contra o varo, contra a rotação externa da tíbia e contra o deslizamento da tíbia para trás. Se o LCA é o eixo do giro para frente, o canto póstero-lateral é o que impede o joelho de “abrir e torcer” para o lado de fora.

A lesão isolada do LCL é pouco comum. O mais frequente no consultório é o LCL rasgar junto com o canto póstero-lateral — e, muitas vezes, com o LCA ou o LCP. Por isso um laudo que fala só em “entorse lateral” pode estar descrevendo só um pedaço do problema.

Não é a mesma coisa que o colateral medial (o de dentro, que sofre no valgo), nem o LCA que falseia no pivô clássico, nem o menisco que trava na interlinha. Aqui a queixa aponta para a face lateral e para o joelho que cede quando a carga cai por fora.

O que acontece no joelho

Quatro ligamentos principais estabilizam o joelho: os colaterais (medial e lateral) nas laterais e os cruzados (LCA e LCP) no centro. O LCL é extra-articular: fica por fora da cápsula, tenso com o joelho esticado, e é o principal freio ao varo em extensão.

O canto póstero-lateral é mais do que um ligamento. O poplíteo “desenrola” a tíbia e trava a rotação externa; o ligamento poplíteo-fibular liga esse sistema à fíbula; a cápsula e o bíceps femoral somam. Quando esse conjunto falha, o joelho não só abre em varo: a tíbia gira demais para fora e, em alguns casos, recua. No esporte isso aparece como falseio em terreno irregular, ao descer ou ao apoiar na perna de fora da curva.

O nervo fibular comum passa rente à cabeça da fíbula, bem ao lado desse canto. Por isso uma lesão importante do LCL/CPL pode vir com formigamento, dormência no dorso do pé ou dificuldade para levantar o pé (pé caído). Não é “frescura” nem lesão da coluna até que se prove o contrário — o nervo pode ter sido esticado no mesmo entorse.

A gravidade vai do estiramento (fibras íntegras, dor) até a ruptura completa, com o joelho frouxo no varo. Completa e isolada é rara. Completa combinada com LCA ou LCP é o cenário que mais muda o tratamento — e o que mais passa despercebido se o exame olhar só o cruzado.

Se o canto póstero-lateral rasgou e não foi reconhecido, uma reconstrução isolada do LCA pode falhar: o enxerto continua recebendo o varo e a rotação que o canto deveria segurar. Daí a importância de examinar os dois lados do joelho, não só o laudo do cruzado.

Causas

O mecanismo clássico é força em varo — um impacto na face medial do joelho que abre o lado de fora — muitas vezes somado a hiperextensão ou a rotação. Diferente do LCA, aqui o contato (ou o desequilíbrio com o pé preso) aparece com mais frequência.

No esporte. Entrada no futebol na face interna da perna, aterrissagem com o joelho cedendo para fora, luta e artes marciais com chave em varo, esqui com a borda interna do esqui presa. O pé fica fixo e o corpo vai para o lado contrário.

No trauma de maior energia. Queda de moto, atropelamento, hiperextensão violenta. Nesses casos o canto póstero-lateral quase nunca vem sozinho: LCA, LCP, canto medial e até a fíbula podem entrar na lesão.

O que aumenta o risco:

  • esporte com contato e desequilíbrio em apoio unipodal

  • hiperextensão do joelho (chute no vazio, aterrissagem com o joelho esticado)

  • joelho que já tem LCA ou LCP rasgado — o canto lateral passa a ser mais exigido

  • voltar ao esporte com o joelho ainda frouxo depois de um entorse “lateral” que não foi examinado direito

  • alinhamento em varo (joelho que já “abre” para fora), que concentra carga no LCL

Não é o mesmo mecanismo do LCA sem contato (finta, valgo, rotação interna). Pode coexistir: um entorse grave rasga o cruzado e o canto no mesmo instante. O paciente lembra de um impacto ou de o joelho ter “aberto” para o lado, não só de um giro.

Sintomas

O quadro depende de o LCL ter só esticado ou de o canto inteiro ter falhado — e de haver ou não lesão do nervo fibular.

No momento da lesão:

  • dor nítida na face lateral do joelho, às vezes na cabeça da fíbula

  • estalo menos “famoso” que o do LCA, mas a impressão de que o joelho abriu para fora

  • inchaço, em geral mais lateral do que o joelho inteiro “estufado” da hemartrose do LCA — embora, se o cruzado rasgou junto, o inchaço seja grande e rápido

  • dificuldade para apoiar, sobretudo com o joelho esticado

Depois que a fase aguda passa:

  • falseio ao andar em terreno irregular, ao descer ou ao mudar de direção com carga na perna de fora

  • sensação de que o joelho “abre” ou cede para o lado lateral

  • insegurança em apoio unipodal

  • dor na face lateral que volta no treino, na corrida em curva ou na musculação com o joelho esticado

  • em lesão crônica, alguns desenvolvem um empurrão em varo na marcha: o joelho abre para fora a cada passo

Quando o nervo fibular entra:

  • formigamento ou dormência na lateral da perna e no dorso do pé

  • fraqueza para levantar o pé ou os dedos

  • o pé “arrasta” ao andar

O que pode acompanhar:

  • falseio de LCA (pivô, desaceleração) se o cruzado rasgou no mesmo entorse

  • instabilidade para trás se o LCP também sofreu

  • dor na interlinha lateral (menisco lateral ou o próprio canto)

O que em geral não é o quadro isolado do LCL/CPL: dor na frente da patela ao ficar sentado (condropatia); patela que sai do sulco para fora (luxação da patela — o lado é o mesmo, o mecanismo e o exame são outros); travamento na interlinha depois de um giro, sem frouxidão em varo (pensar mais em menisco); falseio clássico de LCA sem dor lateral e sem varo no exame.

No consultório, o diagnóstico se apoia na história e no exame: estresse em varo com o joelho em extensão e a 30 graus, teste de rotação externa (dial test), comparação com o outro lado. A ressonância mostra o LCL, o poplíteo, o ligamento poplíteo-fibular e lesões associadas. Ela não substitui o exame: um canto frouxo com ressonância “quase normal” ainda é um canto frouxo — e o contrário também acontece.

Quando procurar avaliação

Vale ir ao pronto-socorro ou ao especialista se:

  • houve impacto na face medial ou a impressão de que o joelho abriu para fora

  • a dor é bem na face lateral, na cabeça da fíbula, depois de um entorse

  • o joelho falseia em terreno irregular ou ao apoiar com a perna esticada

  • apareceu formigamento, dormência no dorso do pé ou dificuldade para levantar o pé

  • já veio um laudo de “entorse do LCL”, “lesão do canto póstero-lateral” ou “lesão combinada” e não está claro o que isso muda na prática

  • o LCA (ou o LCP) já foi diagnosticado e o joelho continua instável no varo

No começo o joelho está dolorido e o exame de estabilidade às vezes fica mais claro alguns dias depois. Radiografia descarta avulsão da cabeça da fíbula e fratura; a ressonância detalha as partes moles. Caminhar em linha reta com pouca dor não significa que o canto está íntegro.

Enquanto a avaliação não acontece: evite terreno irregular, pivô e a tentativa de “testar” se o joelho abre para fora. Se houver pé caído, inchaço grande, joelho muito frouxo ou impossível de apoiar, não espere a agenda eletiva.

Dr. Gabriel Taniguti

Ortopedista — Traumatologia do Esporte e Cirurgia do Joelho. Escola Paulista de Medicina / UNIFESP (DOT e CETE).

Av. Chucri Zaidan, 940 — 3º andar, Tower 2 — Vila Cordeiro, São Paulo. Telefones: (11) 5039-4356 · (11) 93305-8210.

Este texto é educativo e não substitui consulta médica.

Comentários


Transparent.png

©2023 por Dr Gabriel Taniguti

bottom of page